Fecho os olhos e vejo um bando de pássaros. A visão dura um segundo, talvez menos; não sei quantos pássaros vi. Era definido ou indefinido seu número? O problema envolve o da existência de Deus. Se Deus existe, o número é definido, porque Deus sabe quantos pássaros vi. Se Deus não existe, o número é indefinido, porque ninguém conseguiu fazer a conta. Nesse caso, vi menos de dez pássros (digamos) e mais de um, mas não vi nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três ou dois pássaros. Vi um número entre dez e um, que não é nove, oito, seis, cinco et cetera. Esse número inteiro é inconcebível; ergo, Deus existe.
(Jorge Luis Borges - do livro: O Fazedor - tradução:Josely Vianna Baptista)
Procuro alguém que assim como eu
goste de chuva...
Não só da chuva que cai , fina e constante,
mas da chuva de temporais, de raios e trovões.
Alguém que goste do após chuva
das ruas enlameadas, do vento no rosto,
das poças d´água e do cheiro da terra molhada...
Procuro alguém que não se sinta triste porque chove
mas saiba ver a beleza triste da chuva.
Procuro alguém que dispense guarda-chuvas
e saiba sorrir criança com a chuva no rosto...
Alguém que sabendo viver a chuva
saiba também apreciar uma chávena de chá ou café
no clima da chuva e da companhia
por trás das vidraças embaçadas.
nenhum lugar se escuta no lugar onde não existes.
aqui, não há sequer o teu esquecimento. há palavras
que não te negam. crescemos sem esperar nada de ti.
se és o silêncio, nós não conhecemos o silêncio. se és
a solidão, és inútil. o que existe longe de nós não é a
nossa casa. nós suportamos as paredes da nossa casa.
nenhum tempo pode esquecer o tempo que te esqueceu.
agora, a música repete outros rostos. os instantes não
se lembram de ti. o horizonte tenta proteger-te do medo.
AMOR
o teu rosto à minha espera. o teu rosto
a sorrir para os meus olhos. existe um
trovão de céu sobre a montanha.
as tuas mãos são finas e claras. vêes-me
sorrir. brisas incendeiam o mundo.
respiro a luz sobre as folhas da olaia.
entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos.
este dia será sempre hoje na memória.
hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas.
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.
ENCANTAMENTO
há uma palavra mágica que se diz. essa palavra
é sempre diferente. montanha, precipício, brilho.
essa palavra pode ser um olhar. a voz. um olhar.
essa palavra pode ser o espaço de silêncio onde
mão se disse uma palavra. brilho, , montanha.
essa palavra pode ser uma palavra, qualquer palavra.
há uma palavra mágica que se diz. há um momento.
depois dessa palavra, só depois dessa palavra,
pode começar o amor.
EXPLICAÇÕES DA ETERNIDADE
devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.
os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.
por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.
os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.
foste eterna até ao fim.
*(José Luís Peixoto - do livro: A Casa, a Escuridão - Edição: Temas e Debates/Lisboa-Portugal)
A clara profusão de um poente
enaltece a rua,
a rua aberta como um vasto sonho
para qualquer acaso.
O límpido arvoredo
perde o último pássaro, o ouro último.
A mão andrajosa de um mendigo
agrava a tristeza dessa tarde.
O silêncio que mora nos espelhos
forçou seu cárcere.
A escuridão é o sangue
das coisas feridas.
No ocaso incerto
a tarde mutilada
foi umas pobres cores.
(Jorge Luis Borges - do livro: Primeira Poesia - tradução:Josely Vianna Baptista)
Hei de edificar a vasta vida
que mesmo agora é teu espelho:
toda manhã hei de reconstruí-la.
Desde que te afastaste,
tantos lugares se tornaram inúteis
e sem sentido, como
luzes no dia.
Tardes que foram nicho de tua imagem,
músicas em que sempre me esperavas,
palavras daquele tempo,
eu terei de quebrá-las com minhas mãos.
Em que profundezas esconderei minha alma
para que não enxergue tua ausência
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e impiedosa?
Tua ausência me cerca
como a corda o pescoço.
O mar em que naufraga.
(Jorge Luis Borges - do livro: Primeira Poesia - tradução: Josely Vianna Baptista)
Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere um instante ocasional
neste curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.
Ai, adote uma atitude avara
se você preferir a cor local
não use mais que o sol da sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.
Se não procure o cinza e esta vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse
antes, deixe levá-lo a correnteza
Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza
ponha tudo de lado e então comece.
CARLOS PENA FILHO - (Recife, 17 de maio de 1929 — Recife, 1 de julho de 1960) foi um poeta brasileiro, considerado um dos mais importantes poetas pernambucanos da segunda metade do século XX depois de João Cabral de Melo Neto. Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Recife, em frente à qual hoje se encontra o busto do poeta. Teve sua carreira prematuramente encerrada em virtude de sua inesperada morte em 1960, quando ele ainda estava com 31 anos de idade.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/ wiki/Carlos_Pena_Filh enviada por Antonio C. Menezes
Valetas,
serras ásperas,
dunas,
sitiadas por arfantes singraduras
e pelas léguas de tempestade e areia
que se aglomeram no fundo do deserto.
Em um declive está o jardim.
Cada arvorezinha é uma selva de folhas.
Em vão fazem-lhe o cerco
os estéreis cerros silenciosos
que apressam a noite com sua sombra
e o triste mar de inúteis verdores.
Todo o jardim é uma luz amena
que ilumina a tarde.
O jardinzinho é como um dia de festa
na pobreza da terra.
(Jorge Luis Borges - do livro: Primeira Poesia - tradução: Josely Vianna Baptista) enviada por Antonio C. Menezes
Nem a intimidade de tua fronte clara como uma festa
nem o hábito de teu corpo, ainda misterioso e tácito
e de menina,
nem a sucessão de tua vida assumindo palavras ou silêncios
serão favor tão misterioso
quanto olhar teu sonho envolvido
na vigília de meus braços.
Virgem miraculosamente outra vez pela virtude do sono
que absolve,
calma e resplandecente como a alegria que a memória elege,
vais me dar essa margem de tua vida que tu mesma não tens.
Lançado no silêncio,
fitarei essa praia última de teu ser
e hei de te ver pela primeira vez, quem sabe,
como Deus há de ver-te,
a ficção do Tempo dissipada,
sem o amor, sem mim.
(Jorge Luis Borges - do livro: Primeira Poesia - tradução: Josely Vianna Baptista) enviada por Antonio C. Menezes
Tarde que solapou nosso adeus.
Tarde afiada e prazerosa e monstruosa como um anjo
obscuro.
Tarde em que viveram nossos lábios na intimidade nua
dos beijos.
O tempo inevitável transbordava sobre o abraço inútil.
Juntos dissipávamos paixão, não para nós, mas para
a solidão já próxima.
A luz nos afastou; a noite chegara de repente.
Fomos até o portão com a seriedade da sombra que
agora uma estrela atenua.
Como quem volta de um prado perdido eu voltei
de teu abraço.
Como quem volta de um país de espadas eu voltei
de tuas lágrimas.
Tarde que dura vívida como um sonho entre as outras
tardes.
Depois fui alcançando e ultrapassando noites
e singraduras.
(Jorge Luis Borges - do livro: Primeira Poesia - tradução: Josely Vianna Baptista)
enviada por Antonio C. Menezes
26/03/2008 21:44 QUANDO TE VI, AMEI-TE JÁ MUITO ANTES.
TORNEI A ACHAR-TE QUANDO TE ENCONTREI.
NASCI PARA TI ANTES DE HAVER O MUNDO.